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O Prof. Doutor Luís Costa, Director do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte, traçou-nos um alargado panorama não só acerca do Serviço que dirige, como sobre a grave patologia que constitui a segunda causa de morte no mundo: o cancro |
O Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte, dirigido pelo Prof. Doutor Luís Costa, médico oncologista, à semelhança de todos os outros Serviços desta especialidade médica espalhados pelo mundo, apresenta-se como um dos Serviços hospitalares em que é obrigatório todo um esforço para que os dias não nasçam cinzentos. O peso das patologias nele tratadas obriga a que a fé e a esperança, aliadas ao rasgar constante de novos horizontes no seio das ciências médicas, sejam o holofote que brilha e ilumina o caminho para o reencontro com a alma da vida. Nesta alargada entrevista feita ao Director do Serviço de Oncologia do CHLN, olhámos para o desempenho do Serviço; olhámos para o comportamento humano de todos os profissionais que prestam assistência ao doente oncológico, e olhámos, necessariamente, para as respostas terapêuticas de hoje, perante a segunda causa de morte das civilizações do século XXI: o cancro.
O Centro Hospitalar Lisboa Norte foi pioneiro em Portugal na área da Oncologia Médica
O Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte, foi criado, enquanto Serviço, em 2003, no entanto, como Unidade de tratamento de doentes oncológicos, a sua existência remonta há mais de duas décadas. Aliás, segundo o Prof. Luís Costa, o Centro Hospitalar Lisboa Norte foi pioneiro, a nível nacional, na área da Oncologia Médica. Mas vamos aos pormenores pela voz do Director do Serviço: «A Oncologia Médica é uma especialidade que se dedica sobretudo ao tratamento médico dos doentes. Ou seja, dentro da Oncologia, existem tratamentos cirúrgicos, tratamentos de radioterapia e tratamentos médicos, sendo que estes envolvem a administração de fármacos, no entanto, a nossa actividade não se cinge simplesmente à administração e prescrição de fármacos. Cabe ao médico oncologista avaliar as respostas e as necessidades desses fármacos, estar muito atento aos sintomas e aos muitos problemas levantados pelo doente, afinal e numa palavra: é nossa missão estar sempre presente no seguimento do doente como um todo. Quanto ao exercício da Oncologia Médica neste Centro Hospitalar, tudo começou no final da década de setenta pela mão e o saber do Dr. Eduardo Bruno da Costa. O Dr. Bruno da Costa foi das primeiras pessoas a começar os tratamentos médicos oncológicos em Portugal».
Os números espelham a actividade do Serviço
«Como é que caracterizo o Serviço de Oncologia? Numa frase afirmo-lhe que é um Serviço com uma intensíssima actividade clínica, e a prová-lo estão os números que eu diria impressionantes e ainda “quentes” relativos ao ano de 2006». E o Prof. Luís Costa, sem se socorrer de qualquer documento adiantou: «Para além dos doentes que já tratávamos, em 2006 recebemos mais 806 novos doentes, o que equivale a dizer-lhe que no ano transacto realizámos mais de 10.500 tratamentos injectáveis, sendo que o número de consultas médicas rondou as 12.200. Com esta amostragem já fica uma ideia do desempenho do nosso Serviço». Pela expressão dos números e atendendo ao staff do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte – é composto por seis médicos especialistas; oito enfermeiros; três auxiliares de enfermagem, e quatro secretárias – facilmente se conclui a intensíssima actividade clínica referida pelo Director do Serviço.
Um sinal de diferenciação do Serviço
«Outro aspecto que quero salientar é a vontade manifestada por muitos jovens médicos que pretendem fazer a especialidade de Oncologia Médica e que escolheram o nosso Serviço para a sua formação. No último ano e meio passámos de um a dois internos para actualmente contarmos com seis internos no Serviço. Isto significa que existem muitos profissionais a quererem fazer formação nesta área, e o facto de procurarem o nosso Serviço para aprenderem Oncologia também é um sinal de diferenciação e de ambiente de equipa que culmina na actividade clínica que já lhe mostrei».
O envolvimento do Serviço em projectos de investigação
Sempre com palavras simples mas repletas de conteúdo e transparência, o Prof. Luís Costa continuou: «Outra das características do nosso Serviço passa pelos gestos terapêuticos, quase todos já devidamente protocolados. Ou seja, a forma como pensamos actuar sobre os doentes foi discutida entre nós, foi descrita e é pública em todo o Centro Hospitalar, nomeadamente junto da comissão de farmácia e de terapêutica e do Conselho de Administração. Também quero salientar que em termos de investigação o Serviço já tem uma actividade relativamente intensa. Neste momento temos mais de dez estudos clínicos internacionais em curso, o que quer dizer que estão a ser testadas novas terapêuticas a serem incluídas não só em Portugal, sendo o nosso Serviço um dos Centros, como no resto da Europa e nos Estados Unidos da América. Esta é uma das nossas participações no conhecimento de novas armas terapêuticas, mas paralelamente a este tipo de investigação, também no último ano estabelecemos uma parceria extremamente interessante com o Instituto de Medicina Molecular». E frisou: «Todos estes projectos têm origem no nosso Serviço, e a eles estão ligados não só os médicos do Serviço, como também os internos que lhe estão afectos, o que se revela uma forte força de atracção para estes jovens médicos, uma vez que para além de virem aprender como tratar os doentes, vêm também aprender a evoluir, a tratar de assuntos científicos, e a enriquecer o seu próprio curriculum profissional».
“São os nossos doentes que nos ensinam a aceitar a vida”
Nesta fase da conversa entrámos nas realidades duras do Serviço de Oncologia. Mas e porque são realidades, disse-nos o Prof. Luís Costa: «Os nossos doentes sofrem de uma patologia muito difícil. A doença oncológica é uma das doenças que se insere no “pouco, tudo ou nada”. Isto é, ou se cura e fica resolvido, ou não se cura e habitualmente mata. No nosso dia-a-dia somos confrontados com os mais ásperos mas legítimos problemas dos doentes, no entanto, a maior carga emocional de todas as pessoas que aqui tratamos passa pelo quererem saber se estão ou não curadas. Se têm ou não uma doença fatal. E se têm uma doença fatal querem saber quanto tempo de vida lhes resta. Querem saber qual o sofrimento que os aguarda. Enfim, já entendeu. Portanto, quando eu digo que fazemos mais de doze mil consultas subsequentes, temos que ter presente que todas essas consultas significam ver doentes com essa carga emocional; significam gestos terapêuticos complicados; significam decisões terapêuticas complicadas, mas sobretudo significam uma abordagem linguística muito cuidada com o doente; significam o enraizamento de determinada esperança, e acima de tudo significam a criação de uma grande confiança. Os doentes confiam muito em nós. Os doentes têm uma ligação muito forte com o seu médico oncologista. Isto para lhe dizer que este Serviço é muito duro na vertente emocional para quem aqui trabalha, mas por outro lado e sob o ponto de vista humano é extremamente gratificante e compensador. Quem tem vocação para trabalhar nestes Serviços é compensado pela bravura com que os nossos doentes nos ensinam a aceitar a vida».
A humanização em Oncologia Depois de um breve olhar no vazio e uma imperceptível pausa, o Prof. Luís Costa foi ao âmago de si próprio e continuou: «Tudo o que lhe estou a dizer faz parte integrante da Medicina, e por assim ser devo adiantar-lhe que o doente, para além de estar muito doente, não deixa de ser aquilo que é para além da doença. Isto é, uma mãe que é mãe, continua a preocupar-se com os seus filhos, e isso é muito bonito. Nós assistimos ao comportamento de muitos pais que aqui vêm. Legitimamente poderíamos pensar que só estão preocupados com o curso da doença dos filhos, mas no fundo essa preocupação assenta fundamentalmente no quererem saber como é que os filhos vão ficar. Todos estes aspectos são muito importantes, porque nós, para além de termos que lidar com o doente, temos também que lidar com a família. A família faz parte integrante de quem trata e faz parte integrante de quem sofre. E faz parte de quem sofre porque se trata do seu ente, e faz parte de quem trata porque nos ajuda a minorar o sofrimento na óptica da cura do doente. Essa relação que estabelecemos com os familiares do doente é outro dos aspectos muito interessantes desta especialidade. Mas note, quando eu digo nós, não me refiro só a nós médicos. Refiro-me a toda a equipa que trabalha neste Serviço. Esta é outra questão que não me canso de frisar: atendendo ao reduzido número de pessoas que compõem o staff do nosso Serviço, é quase um milagre que as coisas corram bem. Mas se de facto as coisas correm bem, isso deve-se inteiramente à grande competência dos profissionais que aqui trabalham. E essa competência começa logo na forma como os doentes são recebidos. Qualquer doente que se dirija a este Serviço vem necessariamente com um elevado nível de ansiedade, pelo que, logo no seu primeiro contacto, que é com a Secretária, tem que ouvir uma voz compreensiva e de alguém com disponibilidade imediata para levar o seu caso a um dos médicos da equipa. Estes comportamentos, muito embora possam parecer elementares, são uma das chaves do sucesso que envolve a actividade clínica no Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte».
Um problema com solução à vista
Mas se o patamar do sucesso tem uma chave, outros patamares e outras chaves urgem no Serviço de Oncologia, e senão atente-se a esta mensagem em forma de alerta deixada pelo Director do Serviço: «Um dos aspectos que muito me preocupa no desempenho do nosso Serviço passa pelo número manifestamente insuficiente de enfermeiros. O horário de funcionamento do Serviço vai das 8 às 20 horas, sem haver lugar a pagamento de horas extraordinárias, e só com os oito enfermeiros que aqui trabalham não é possível encontrar tempo para falar com os doentes. O pessoal de enfermagem, para além da administração das terapêuticas, tem necessariamente que falar com os doentes. É muito importante o enfermeiro lembrar o doente dos procedimentos a ter após os tratamentos, mas para isso é necessário tempo, e com os oito enfermeiros que temos no Serviço não é fácil responder cabalmente a todas as tarefas. Vamos fazendo tudo para minorar esta situação, mas não deixa de ser um preocupante problema que está instalado no Serviço. Naturalmente que sobre este assunto já alertei quem de direito, mas lamentavelmente o problema persiste». O problema acima apontado – a falta de pessoal de enfermagem no Serviço de Oncologia – está em vias de resolução. Esta a informação que colhemos junto da Direcção de Enfermagem.
O Serviço de Oncologia do CHLN foi classificado na segunda posição nacional num estudo realizado sobre a sobrevivência de doentes tratados
O alarmante e crescente número de casos com patologias do foro oncológico suscitou-nos a questão das eventuais taxas de êxito atingidas. A resposta do Prof. Luís Costa foi clara: «Em Portugal infelizmente não existe uma base de dados clínicos informatizada, no entanto, os últimos números que temos apurados quanto a resultados finais de sobrevivência nas patologias mais graves e das mais comuns, como o cancro da mama, cancro do cólon, etc., são muito semelhantes às taxas que encontramos nas estatísticas internacionais. Aliás, muito recentemente foi realizado um estudo pela Escola Superior de Saúde Pública em diferentes hospitais, cujo item principal era a sobrevivência, e para quem tiver interesse em fazer essa consulta verifica que o Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte está em segundo lugar a nível do País. Em primeiro lugar está um Serviço de Gastrenterologia, em Coimbra, que pelo facto de não ser um Serviço de Oncologia puro, parece-me viável atingir melhores resultados. No caso concreto do nosso Serviço, em que recebemos todo o tipo de doentes oncológicos, desde os mais graves aos menos graves, conseguimos estar muitíssimo bem classificados, e se verificarmos o número de actos desempenhados pelo nosso staff, então conclui-se que temos uma rentabilidade elevadíssima». Ainda acerca dos índices de cura nas patologias oncológicas, o Prof. Luís Costa foi, como se entende, extremamente diligente nesta informação: «As taxas de sucesso são sempre objectivas, no entanto, na área oncológica o quadro difere consoante as patologias. E senão veja: no cancro da mama há uma determinada taxa de cura, mas essa taxa não compreende todos os estadios da doença. Ou seja, no cancro da mama estadio I, está compreendida uma determinada probabilidade de cura; no cancro da mama estadio II, existe uma outra probabilidade de cura; no cancro da mama estadio III, a probabilidade de cura já é outra, e no cancro da mama estadio IV, não existe probabilidade de cura. Mas pela vastidão destes processos não é de todo possível dar-lhe uma informação linear sobre esta matéria».
Os tratamentos em Portugal pautam-se pela melhor qualidade que existe a nível mundial
Estávamos ainda a esboçar a pergunta sobre os avanços nas terapêuticas oncológicas e já o Prof. Luís Costa nos estava a responder: «Um dos bons resultados advindos da globalização passa exactamente pela qualidade dos tratamentos administrados aos doentes. Os protocolos de actuação terapêutica na área oncológica utilizados em Portugal são exactamente os mesmos que se utilizam no resto da Europa e nos Estados Unidos da América. Com a maior das firmezas lhe afirmo que em Portugal não estamos a subtratar os doentes. Em Portugal estamos a investir no melhor que existe a nível mundial para tratar os doentes».
“O cancro é uma doença que está nesta civilização e que está para ficar”
E foi em discurso directo que terminámos esta documentativa entrevista: Senhor Professor, as patologias oncológicas em Portugal estão a crescer ou a decrescer? «Globalmente a incidência de cancro está a aumentar, no entanto, nalgumas patologias, e muito concretamente no cancro da mama, verifica-se uma vitória no que diz respeito à mortalidade. Apesar do cancro da mama estar a aumentar, conseguimos baixar a taxa de mortalidade. E isto porquê? Porque os diagnósticos são mais precoces e os tratamentos mais eficazes, o que me leva a dizer-lhe que estamos a conseguir suster o índice de mortalidade numa doença que é cada vez mais frequente. Relativamente a outras patologias oncológicas o mesmo já não se passa. E não se passa porque a incidência aumentou tanto que os resultados em termos de mortalidade não são tão animadores como no cancro da mama». E o Prof. Luís Costa deixou que o brilho da sua voz se apagasse para concluir: «Globalmente, posso afirmar-lhe que infelizmente o cancro é uma doença que está nesta civilização e que está para ficar. É uma doença que dizima muitas pessoas. É a segunda causa de morte, mas também existem muitos cancros que se curam. Se nós olharmos para o cancro pelo número de pessoas que morrem, ficamos com uma visão distorcida da doença. E porquê? Porque em Portugal verifica-se que o cancro mata sensivelmente dezanove mil pessoas por ano, o que sendo um número muito elevado, é todavia bastante inferior ao número de pessoas que sofrem dessa terrível patologia, o que significa que apesar da brutal mortalidade, ainda há muito mais pessoas que ultrapassaram a doença». Desta sumária explicação deixada pelo Prof. Luís Costa retivemos a informação sobre o aumento do cancro da mama, o que nos levou à questão das causas desta patologia. «As causas do cancro da mama não são conhecidas, todavia temos conhecimento dos factores de risco. Dentro destes sublinho a história familiar e a obesidade, no entanto, sabemos que um outro factor de risco muito importante está identificado com a utilização de estrogéneos. É inegável que a utilização de estrogéneos, quer seja no contexto de contraceptivos, quer seja no contexto de terapêutica hormonal de substituição, aumenta o risco de cancro da mama. Naturalmente que este princípio não se pode aplicar a todas as mulheres, mas ainda não dispomos de informação pormenorizada sobre essa matéria. Posso adiantar-lhe que neste momento está em curso uma investigação no sentido de identificarmos quais as mulheres cuja exposição a esses estrogéneos constitui um maior risco, mas até ao momento assumimos os riscos como um todo». E o Prof. sublinhou: «Note que estas não são as causas. Estes são os factores de risco actualmente conhecidos pela comunidade médica e científica de todo o mundo».
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«Com a maior das firmezas lhe afirmo que em Portugal não estamos a subtratar os doentes. Em Portugal estamos a investir no melhor que existe a nível mundial para tratar os doentes», palavras do Prof. Doutor Luís Costa | Texto de: Carlos Gamito |